Raindrop: Pagan Poetry

A Caixa

by D on Mar.10, 1998, under Textos

Levantou-se pontualmente às 6:00 da manhã e se arrumou para mais um dia de trabalho. Ainda sonolento, tomou seu café enquanto lia o jornal matinal. Mas sua tensão foi logo desviada por uma voz vinda de longe (talvez do apartamento vizinho). Logo ficou completamente alheio à sua realidade. Ligou a televisão e pôs-se a ouvir atentamente a notícia que o repórter, com uma voz completamente vazia de emoções, anunciava: os funcionários do governo seriam demitidos em massa, em uma tentativa do governo de gastar menos dinheiro.

Naquele exato momento, já começando a pensar em seu futuro, caso fosse demitido, pensou ter visto algo diferente na televisão. Ela parecia ter tido, por um brevíssimo instante, algo como que uma expressão. Não conseguiu identificar e logo afundou em seus pensamentos.

Já era hora de sair de casa. Sair do conforto de seu apartamento de dois quartos para o implacável trânsito da grande São Paulo. Sairia de casa 6:45, mas só chegaria ao trabalho por volta das oito.

Estacionou seu carro e rumou para sala, na qual ficaria sentado em outro banco, não mais confortável que o do carro, durante horas, enquanto lia documentos durante horas a fio, para depois fazer relatórios, resumindo o conteúdo de todos eles a seus superiores. Sua vista, já desgastada pelas horas que passava diante do computador, já não conseguia focalizar direito as letras miúdas.

Meio-dia. Hora da merecida pausa para o almoço. Sem tempo para voltar para seu apartamento e desfrutar a deliciosa comida da esposa, tem de se contentar com o sanduíche de queijo e presunto oferecido pela lanchonete ao lado do prédio onde trabalha. Ao menos pode sentar na sala de espera, onde seus companheiros se reúnem todos os dias para assistir ao jornal e, alguns dias em que o humor favorece este tipo de interação, conversarem um pouco enquanto comem.

Mas, passadas duas horas, tem de voltar ao seu tedioso trabalho. Senta-se mais uma vez em sua cadeira e começa a ler os documentos. Nada de novo, como sempre. Nunca sabe de nada realmente importante, resignando-se às condições que lhe são impostas.

Finalmente, quando o relógio de sua sala indica seis horas, recolhe seu terno, que esteve pendurado durante o expediente, e parte de novo para a sua luta contra os outros motoristas. Ao chegar em casa, liga de novo aquela caixa sem vida, a televisão, e vai tomar seu banho. Só ao chegar na sala de novo, percebe duas cartas em cima da mesa. Uma, que não é exatamente uma carta, e sim um bilhete de sua mulher, o avisa que ela terá de chegar mais tarde em casa devido a uma reunião. A outra está cuidadosamente fechada e com o selo do governo na sua frente. Ao abri-la, recebe oficialmente a notícia que desde aquela manhã temia receber: havia sido demitido.

Desconsolado, olha para a TV. E vê de novo a expressão, desta vez mais clara: estava rindo dele, de sua ingenuidade, por pensar que realmente tinha alguma importância para a máquina do governo, que trabalha incessantemente. Ria dele, pois nunca tinha pensado que era apenas uma peça sobrando no jogo. E acabava de ser descartado. Então ele se olhou no espelho. E viu o que nunca havia tinha visto antes. Apenas mais um tolo, manipulado pela caixa que ria dele agora, sem nunca se dar conta da realidade.

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