A Espera
by D on Jan.20, 2009, under Textos
Naquela noite, soturno, voltou os olhos à lua que deveria estar sobre as nuvens. Não conseguia enxergar seu brilho, mas seu coração tinha a certeza que estava lá, em algum lugar, olhando para ele e sorrindo carinhosamente, esperando a tempestade que começara mais cedo passar para acariciá-lo com seus braços prateados.
E todas as noites ele olhava para o céu na esperança da incômoda umidade ter se dissipado, e todas as noites retornava apenas com as lágrimas lavadas pela água que, incessante, vinha ao encontro de seu rosto. Mas sabia que a lua estaria lá, e vivia cada dia com a certeza que se revelaria no próximo.
Um dia. Uma semana. Um mês.
Já não sabia mais quanto tempo havia se passado sem vê-la. A face brilhante se apagava em sua memória eternamente nublada. A idéia, que havia uma Lua, permanecia lá, mas era cada vez mais distante. Havia apenas a chuva, tangível, que caía incessantemente. Não havia pássaros, não havia pessoas, não havia nenhuma outra luz na escuridão. O único ruído era de sua respiração. E da chuva.
Mais um dia. Mais um mês. Mais um ano.
Ainda executava religiosamente aquele ritual de olhar para cima apenas para seus olhos serem cobertos pela água. Não lembrava mais o que procurava, apesar de ter a certeza que procurava algo. Algo distante e brilhante, provavelmente chamada Lua, que estaria acima do céu que caía todos os dias sobre seu rosto. Já não sentia a tristeza de não ver seu brilho, pois não se lembrava de como era, já não tinha saudades de cantar na noite, pois dias e noites eram igualmente cinzas.
E um ano mais se foi. E outro. E muitos mais.
Ele já não olhava mais para cima e mal percebeu que as nuvens já não eram mais tão densas. Estava ocupado demais, construindo um abrigo pois já não suportava mais a água caindo em seu corpo, para perceber que tímidos traços de claridade começavam a cortar as sombras no céu.
Finalmente a lua apareceu, junto com todas as estrelas, e olhou para baixo ansiosa para rever seu preferido. Depois de tanto tempo finalmente ele voltaria a compor canções e dançar sob seus braços.
E ele, nesse momento, deitava satisfeito olhando para o teto da cabana. A chuva não iria mais tocá-lo. Nunca.
January 20th, 2009 on 4:37 pm
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