A Moça que Dormia
by D on Jan.21, 2009, under Textos
Acordou e olhou, feliz, o delicado e sereno rosto que descansava no travesseiro ao lado, embalado por sonhos tranqüilos. Levantou-se então, com um sorriso, e foi até a cozinha preparar o seu café da manhã e o da moça, que não veria acordar mas desejava ao menos deixar algo simbólico como agrado. Fazia isso todos os dias e acordar todas as manhãs olhando aquela face era toda a recompensa que poderia desejar.
Durante o trabalho olhava o relógio, ansioso pelo final do expediente, e contava cada minuto que faltava para chegar em casa e vê-la novamente. Esta semana, acreditava, trabalhava mais que o normal e dificilmente conseguiria chegar em casa a tempo de encontrá-la acordada. Ainda era manhã e sua mente estava a quilômetros do monitor que piscava à sua frente, correndo por gramados intermináveis de mãos dadas com a mulher.
Meio dia. Pegou o telefone, pediu para que o almoço da mulher fosse entregue em sua casa e no caminho do restaurante mostrou orgulhosamente uma foto do último feriado, em que posava abraçado com sua amada, a todos os amigos que já haviam se acostumado com os intermináveis discursos que fazia sobre sua companheira. Todos sabiam da história dos dois, como haviam se conhecido, como eram perfeitos um para o outro, mas ele ainda se punha a contar novamente as mesmas coisas.
A tarde se passou igual à manhã e quando finalmente terminou de trabalhar, já tarde da noite, pôs-se a caminho de casa. Ao chegar abriu cuidadosamente a porta e foi até a cozinha, onde esquentou o que havia sobrado do almoço e comeu. Passou silenciosamente pelo quarto, apenas olhando por uma fresta na porta e vendo que sua esposa já dormia profundamente. Tomou seu banho e somente então deitou na cama, tomando todo o cuidado para não acordá-la. Observou sua respiração ritmada e os contornos de sua boca, que beijou com leve ternura. Então apagou a luz.
Fazia muito frio, mas não ousou puxar a coberta que abraçava. Parte de sua mente dizia que isso acordaria a mulher, mas outra parte sabia que tudo que havia ali era a coberta. Sabia que havia pegado o almoço gelado quando chegou em casa e jogado o café que deixou para trás de manhã, intocado, pelo ralo da pia. Sabia que aquela foto que carregava na carteira apenas o mostrava de frente à uma praia. Mas essa parte da mente havia perdido a voz à muito tempo.
Beijou a testa da moça. E dormiu acariciando sua coberta.