Raindrop: Pagan Poetry

Correntes

by on Jan.20, 2009, under Textos

Ouviu a corrente se arrastar. Foi um ruído quase imperceptível, e provavelmente já estava o acompanhando a algum tempo, sem que seus ouvidos percebessem, sem que sua pele notasse o toque gelado do metal, sem que sua mente reagisse. Virou-se e pela primeira vez pode ver claramente que o prendiam. Ou pelo menos julgou ser a primeira vez.

Como haviam o prendido por tanto tempo? Como estava sendo sufocado sem oferecer o mínimo de resistência? Como havia deixado que aquelas amarras o abraçassem e lhe acompanhassem até tão longe?

Lembrava claramente que não esteve sempre ali, que antes vivera em outros lugares, mas uma densa névoa cobria sua memória, impedindo que experimentasse os detalhes. Mas pela primeira vez percebia a névoa, notava que havia algo além do que podia ver.

Os elos sobre suas costas ainda estavam gelados, provocando uma sensação de desconforto. Não deviam estar ali por muito tempo, mas ele não tinha mais noção do que seria um período longo ou curto.

Era como se acordasse de um coma, cercado de coisas, sensações e pessoas estranhas. Pessoas sem face, sem cor, caminhando cegamente enfileiradas. E ele estava na fila. Com horror percebeu que segurava a corrente da pessoa da frente como se fosse uma guia.

Largou-a e correu. Não tentaram alcançá-lo, mas não parou até não ver mais nada, até se perder no meio da névoa e não ter mais ar nos pulmões e força nas pernas para continuar correndo.

Queria gritar, mas não conseguiu emitir nenhum som ao abrir a boca seca. Jogou-se no chão e abraçou as pernas, sentindo uma dor nos olhos; lágrimas, que há muito haviam sido esquecidas, brotaram novamente, brilhando na fraca luz do ambiente.

Tentava lembrar-se de como havia terminado prisioneiro. As correntes estavam presas por três pequenos cadeados em volta dele, de aparência tão frágil que teve a impressão de poder quebra-los facilmente se assim quisesse. Levou as mãos até eles e hesitou.

Sentiu algo no bolso da calça velha que vestia. Uma chave.

Estremeceu e chorou como não se lembrava nunca ter chorado. Estava perdido, sem lembranças e sem saber para onde deveria ir. E teve medo de si mesmo.

Porque teria escolhido acorrentar-se?

:,
No comments for this entry yet...

Leave a Reply

Encontre