Inauguração
by D on Jan.19, 2009, under Textos
Agradeço a tu que, triste, desamparada, rejeitada,
Não me tocaste, olhaste, percebeste.
A tu que em ingênua e carente inocência,
Estendeste a mão que trouxe este espírito ao mundo.
Feliz seja por seguir adiante e me abandonar,
Intocado, puro, dormindo profundamente,
Sem minha alma alma macular e sem tuas mãos sujar.
Agradeço a tu que, melancólia, confusa, perdida,
Meus olhos abriste e as primeiras palavras proferiste,
Que marcaste com ferro a paranóia em minh’alma,
E me deste forças para correr e algo procurar.
Feliz seja por seguir adiante e me abandonar,
Decidido, firme, com uma única certeza,
Com um legado e um destino.
Agradeço a tu que, sorrateira e depressiva,
Do chão me puxaste e ao céu me arremessaste,
Riste, insana, durante nossa queda,
Beijaste minha fronte perante a morte.
Feliz seja por seguir adiante e me abandonar,
Sozinho, drogado, olhando o teto branco,
Destruído, crescido, amadurecido, sem sentidos.
Agradeço a tu que, curiosa e contrariada,
Recolheste meus cacos e abriste as nuvens,
Suportaste por tanto tempo amarguras que causei,
Me mostraste a razão que havia perdido.
Feliz seja por seguir adiante e me abandonar,
Arrependido, humilhado, calado,
Contente, ao menos, por de mim ter se livrado.
Agora então inauguro minha caminhada,
Sem cerimônias, trombetas ou paradas,
Apenas caminho em direção ao inverno, inferno,
Sigo também adiante, abandonando-me.