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	<title>Raindrop: Pagan Poetry &#187; contos</title>
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	<description>A concentração de todo esse vazio</description>
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		<title>O Pássaro II</title>
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		<pubDate>Sat, 13 Mar 2010 17:39:03 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[A noite havia iniciado sem lua nem estrelas no dia que o pássaro retornou à casa, o momento em que suas pequenas patas tocaram a madeira da janela aberta iluminado pelo clarão de um raio distante. O vento forte anunciava a aproximação da tempestade e a ave buscou abrigo na casa abandonada, que coincidentemente tinha [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A noite havia iniciado sem lua nem estrelas no dia que o pássaro retornou à casa, o momento em que suas pequenas patas tocaram a madeira da janela aberta iluminado pelo clarão de um raio distante. O vento forte anunciava a aproximação da tempestade e a ave buscou abrigo na casa abandonada, que coincidentemente tinha sido no passado sua moradia. Estava vazia agora a não ser pelas plantas que haviam crescido ao longo das paredes e invadido o lugar pelas janelas, mensageiras da floresta que reclamava o local novamente.</p>
<p>O pássaro moveu a cabeça rapidamente de um lado para o outro, analisando o lugar, e pulou para cima de uma mesa velha, se encolhendo e ouvindo a chuva se aproximar do lado de fora. Logo a água, carregada pelo furioso vento, se espalhava por toda a floresta e chegava ao chão da construção passando por frestas entre as velhas telhas, apesar de não conseguir chegar até a ave. Se isso fosse possível o animal estaria sorrindo um sorriso amargo, pensando em quão irônico era estar novamente debaixo daquele teto, tão próximo da velha gaiola, agora vazia, que ainda estava pendurada na parede com a portinhola aberta. Não se lembrava quanto havia se passado, e isso não era realmente importante, mas se lembrava da tristeza que sentia ao ver o sol nascer, se pôr e nascer novamente com uma barra de metal cortando o disco iluminado ao meio.</p>
<p>Lembrava-se do dia em que sua dona havia aberto a portinhola e ele havia visto a floresta do alto. Lembrava-se da gratidão que havia sentido e das inúmeras vezes que havia voado até os limites da floresta e depois retornado para casa, sempre sendo recebido por um sorriso e um lugar confortável para passar os dias que ficava na casa. Tudo era perfeito: tinha sua liberdade, a floresta, o céu, a casa. Ia até onde as árvores encontravam as altas montanhas ou até o grande lago no lado oposto e, no fim doa, retornava. Até que, um dia, teve a impressão de ter visto algo no horizonte da grande massa azul de água, e percebeu que nunca havia considerado a possibilidade de haver algo além dos limites da floresta.</p>
<p>Um dia, pousado no galho mais alto da árvore mais próxima da água, se encheu de coragem e resolveu que iria descobrir o que havia do outro lado da água. Não sabia quanto teria que voar, mas tinha certeza que conseguiria. Pensando assim alçou vôo, com o sol sobre sua cabeça, subindo o mais alto que suas asas permitiram. Logo a floresta se tornava apenas um ponto diminuto no horizonte e o pássaro decidiu usar o sol para se guiar, pois logo não poderia mais circular e ver a direção tomando como base as copas das árvores, e logo tomou algumas estrelas que apareciam no céu como referência, pois a água já apagava a chama flamejante do astro. Era uma noite sem lua, mas as estrelas brilhavam forte no firmamento e ele sabia que enquanto estivessem naquela mesma posição ele estaria seguindo em frente.</p>
<p>Quando o véu negro começou a ser colorido ele avistou luzes ao longe, diferentes de qualquer estrela que conhecia. Estava cansado e o sol já estava novamente sobre sua cabeça quando finalmente pousou no topo de um prédio, maravilhado com as construções mais altas que qualquer árvore que já havia visto. Era como se um mundo completamente diferente existisse além daquele lago, e passou vários dias observando as pessoas, ouvindo o barulho, voando acima dos prédios. Depois seguiu ainda mais o sol poente, vendo as estradas, as fazendas, as florestas diferentes. Até que um dia decidiu voltar, e chegando em casa encontrou não um sorriso e sim foi recebido aos prantos e palavras tristes que falavam de preocupação, tristeza e saudade. E, sem entender, foi trancado novamente na gaiola, pois aquilo o manteria seguro.</p>
<p>Percebeu naquele dia que não pertencia à aquele lugar. Por mais que gostasse da moça que um dia o havia libertado, não era ali a seu lado que deveria ficar. Afinal ela era uma mulher, e ele, um pássaro. No dia seguinte, quando a gaiola foi aberta pela mulher para que colocasse água para o pássaro, ele se lançou pela portinhola e voou em direção às montanhas. Fez vários círculos enquanto subia, olhando triste para a mulher que gritava lá em baixo, mas não deixaria de seguir em frente. Ele gostava dela, mas seria impossível que os dois fossem felizes, pois ele possuia asas e ela não. Esperava que um dia ela entendesse isso, e não achasse que ele gostava menos dela por isso. Apenas seria impossível ser feliz preso ali, e sabia que ela também ficaria triste quando não o ouvisse mais cantar.</p>
<p>Quando amanheceu, a chuva já havia cessado. O pássaro olhou a casa vazia mais uma vez, e voou pela janela em direção ao céu.</p>
<p>Pois pássarios haviam nascido para voar.</p>
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		<title>Badaladas</title>
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		<pubDate>Mon, 01 Mar 2010 04:43:46 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Acordou sobressaltado com a música nada familiar que soou em alguma parte da casa. Após um curto tempo de melodia conseguiu identificar badaladas que anunciavam as horas, um tom monótono que se repetiu oito vezes. Ainda sonolento, olhou seu próprio relógio, que descansava no criado-mudo, e viu que ainda marcava seis horas. Suspirou, puxou as [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Acordou sobressaltado com a música nada familiar que soou em alguma parte da casa. Após um curto tempo de melodia conseguiu identificar badaladas que anunciavam as horas, um tom monótono que se repetiu oito vezes. Ainda sonolento, olhou seu próprio relógio, que descansava no criado-mudo, e viu que ainda marcava seis horas. Suspirou, puxou as cobertas e dormiu novamente.</p>
<p>Quando acordou e levantou-se, três horas depois, foi até a cozinha e se encontrou com sua avó, que preparava o café matinal. Ela era uma senhora baixa, de costas curvadas e cabelos grisalhos, sempre com um brilho nos olhos verdes e com uma enorme necessidade de conversar, agravada pelo fato de morar só e apenas receber visitas de familiares ocasionalmente, como naquele dia.</p>
<p>&#8220;Querido&#8221;, falou a velha sentindo que o homem havia entrado na cozinha, &#8220;ganhei esse relógio, mas apesar de estar marcando as horas corretamente ele parece sempre tocar como se estivesse adiantado. Poderia ver se consegue descobrir qual o problema?&#8221;</p>
<p>Ele sentiu, ou achou ter sentido, uma certa dor na voz da avó quando fez o pedido e não pôde deixar de imaginar qual seria o motivo daquilo. Talvez estivesse triste por ser um presente novo; talvez o anúncio prematuro das horas fizesse com que achasse que seu tempo de vida cada vez mais se aproximava do limite. Achava cruel que um velho se preocupasse ainda com o tempo, ao invés de simplesmente aproveitar o tempo que lhes restava para fazer quaisquer coisas que ainda tivessem vontade.</p>
<p>Colocou-se no lugar da velha: pensou em quantas coisas ainda queria fazer, quantos planos ainda tinha sem sequer iniciar, quantos lugares queria ver, quantas pessoas ainda queria conhecer. Mas tinha tudo planejado: agora trabalhava duro para que quando se aproximasse daquela idade crítica tivesse condições de realizar todos seus sonhos extravagantes. Dentro de alguns anos compraria seu próprio apartamento, depois de mais outros anos viajaria pelo mundo. Um dia talvez até se casasse. Mas com certeza iria ter um gato.</p>
<p>Tomou o relógio nas mãos e achou um botão atrás dele, que permitiu que sincronizasse o número de badaladas com a hora exibida pelo artefato. Ele não sabia quais eram os sonhos da avó; talvez ela já houvesse conseguido tudo, ou talvez desistido deles. Só sabia que havia vivido muito, e para ter chegado à idade que se encontrava sã com certeza havia realizado muito.</p>
<p>Ele um dia também realizaria muito, um dia. E tinha certeza que seria muito mais que sua avó, ou sua mãe, iriam realizar, pois havia aprendido a não se deixar levar pelos impulsos e sentimentos de um momento que poderiam levar seus planos à ruína. Todas as coisas aconteceriam no tempo certo, cada peça encaixada de acordo com o desenho que havia feito.</p>
<p>Nesse momento o relógio tocou, a pequena melodia seguida pelo número esperado de badaladas. Sorriu. No fim do dia, sua avó o agradeceu por ter consertado o problema, pouco antes de dormir. &#8220;Agora ela não precisa mais se preocupar em ter menos tempo&#8221;, pensou enquanto se recolhia. Fechou os olhos, imaginando que não gostaria de chegar à idade da avó sem ter completado todos seus planos. Dormiu.</p>
<p>Na manhã seguinte a manhã foi perturbada pelo som de seis badaladas acompanhadas de sirenes. Ao lado da ambulância, a velha chorava ao ver o neto que não acordara mais do sono, sem ter experimentado tudo que a vida lhe oferecia e somente se concentrado no futuro que nunca chegaria.</p>
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		<title>Chá</title>
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		<pubDate>Wed, 24 Feb 2010 05:38:21 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[A cadeira velha reclamou ruidosamente sob o peso desagradável da pessoa que se sentou, o rangido sendo apenas percebido pelas paredes, que responderam com seu típico silêncio e indiferença. O homem colocou sobre a mesa, irmã gêmea da pequena cadeira, uma chávena ainda fumegante. Em seguida colocou ao lado uma xícara de porcelana empoeirada e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A cadeira velha reclamou ruidosamente sob o peso desagradável da pessoa que se sentou, o rangido sendo apenas percebido pelas paredes, que responderam com seu típico silêncio e indiferença. O homem colocou sobre a mesa, irmã gêmea da pequena cadeira, uma chávena ainda fumegante. Em seguida colocou ao lado uma xícara de porcelana empoeirada e fitou longamente os objetos, como se não soubesse qual seria o próximo passo a tomar. Então derramou o chá na xícara, e a levou até a boca.</p>
<p>Posicionada na varanda, a mesa era o lugar que mais gostava de ficar quando visitava a velha cabana. Olhar a lua, que se erguia alaranjada e enorme no céu, lhe trazia um conforto que não sabia explicar e o cheiro do mar trazido pelos ventos, que também balançavam uma velha cadeira de balanço do outro lado da varanda, enchia seu corpo de tranquilidade. Tranquilidade que acabaria em breve, assim que a lua deitasse novamente e o calor do novo dia fizesse com que os ventos se invertessem.</p>
<p>Mas agora podia contar nas estrelas e nos grãos de areia seus sonhos. Como as estrelas no céu pareciam todos tão próximos mas nunca os tocava por mais que extendesse o braço, e assim como os grãos de areia da praia iriam se misturar e jamais serem encontrados novamente. Tomou uma xícara de chá.</p>
<p>Olhou em volta, cada objeto trazendo de volta lembranças, algumas queridas, outras que jamais deveriam ter sido trazidas de volta à mente. Do lado de dentro, no fundo da cabana, estava um berço de madeira, já apodrecida, que um dia havia abrigado um pequeno corpo. Tomou outra xícara de chá.</p>
<p>Levantou-se e entrou na casa. Dentro do berço, livros com estórias a muito esquecidas, velhos e apagados demais para serem lidas novamente. Do lado, um pequeno triciclo, com a roda plástica da frente perfurada por cacos de vidro. Tremeu. Ajoelhou-se ao lado do brinquedo, tocando de leve um fragmento do vidro, e ainda pôde identificar uma mancha escura que sabia ser sangue, a muitos anos seco.</p>
<p>Pelo chão, saindo de onde estava e formando uma trilha até o quarto ao lado, pequenas manchas enegrecidas. Sabia que não devia entrar mais. A partir dali a lua já não iluminaria a casa e não haveriam janelas. Entrou, a porta fechando-se atrás dele.</p>
<p>O quarto era iluminado fracamente por um outro brinquedo, de plástico semitransparente, colocado em uma tomada que parecia fora do lugar, pendurada na parede de madeira. Havia um beliche, um tapete circular rasgado e uma barraca de camping com as barras de metal retorcidas. Em cima do tapete, um boneco sem a cabeça. Aproximou-se.</p>
<p>Quando tomou o boneco nas mãos o quarto à sua volta desapareceu, ficando envolto por uma nuvem escura. Ouviu alguém gritando com ele, mas não podia distinguir as palavras. O boneco derreteu-se e escorreu por entre seus dedos. Então estava caindo, a cabeça apontada para o tapete rasgado. Tentou gritar, mas sua boca não se abriu. Ao invés disso, o rasgo no tapete pareceu crescer, engolindo-o quando atingiu o chão.</p>
<p>Quando abriu os olhos viu o teto branco. Sentiu um cheiro que o fez se sentir mal. Cheiro de morte. Olhou para o lado e viu um corpo. Seu corpo. Seus olhos estavam abertos e assustados, a cabeça coberta por sangue. Sentiu que ia vomitar, e tudo começou a rodar. Virou-se bruscamente para o outro lado, caindo da maca em que estava.</p>
<p>Mas o chão em que caiu não era mais o do hospital. Estava em um gramado e várias crianças gritavam para que saísse dali pois estava atrapalhando o jogo delas. Levantou-se, tonto. Um dos garotos, que parecia mais velho, o ameaçava. Correu.</p>
<p>Correu pelo campo até o sol desaparecer. Em seu lugar subiu a lua, e por um momento pensou que havia retornado. Mas não era a lua que conhecia. Era uma lua vermelha, ameaçadora, que parecia reprovar com todas as forças ele estar ali. Sentiu um arrepio percorrer sua coluna. O ar havia mudado.</p>
<p>Paredes se ergueram à sua volta, formando um corredor estreito sem teto iluminado apenas pela luz rubra que vinha de cima. Espelhos nas paredes refletiam infinitamente sua imagem. Então ouviu um barulho vindo de trás dele. Sentiu um frio mórbido abraçar sua alma, congelando-o por dentro. Juntando todas suas forças, olhou para trás.</p>
<p>Sabia o que iria encontrar. Apenas uma coisa era capaz de despertar aquele terror em seu ser. Sabia antes de olhar. Não queria ver, mas seus olhos se recusaram a se fechar. Estava ali, e sabia que estava sorrindo mesmo não tendo uma boca. A Cruz. Rachada, brilhando escalarte. Refletida infinitas vezes, infinitas vezes atrás de sua própria imagem.</p>
<p>Desesperou-se e disparou-se pelo corredor. A lua, a verdadeira lua, em algum lugar chorava por ele, e pelo céu que havia se tornado vermelho. Pelo mundo vermelho. Ele, tropeçando, sentia a presença se aproximar cada vez mais. Sentia mãos invisíveis tocarem seu ombro e baforadas gélidas se lançarem contra sua nuca. O fim do corredor se aproximava, com um último espelho fechando o caminho. Fechou os olhos e se jogou contra o vidro. Sentiu o vidro se estilhaçar, cortando sua pele. Em seguida caiu. Abriu os olhos a tempo de ver o chão se aproximando.</p>
<p>Se preparou para a próxima parte do pesadelo, mas ao invés disso sentiu seu corpo bater no chão. Sentiu a dor percorrer cada um de seus membros, insuportável. E então a dor desapareceu.</p>
<p>Olhava o fundo da chávena, as folhas espalhadas caoticamente na porcelana. A lua já havia se posto. O chá, acabado. Suspirou.</p>
<p>O chá havia acabado.</p>
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		<title>Agares</title>
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		<pubDate>Tue, 03 Mar 2009 04:42:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>D</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Seria um dia como qualquer outro: o sol havia brilhado sendo encoberto raras vezes por nuvens ralas, não havia feito muito calor, as pessoas haviam ido, em sua maioria, trabalhar pela manhã e tarde, com a noite dominada pela luz dos televisores nas salas de cada uma das residências. Para muitos aquele realmente foi um [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Seria um dia como qualquer outro: o sol havia brilhado sendo encoberto raras vezes por nuvens ralas, não havia feito muito calor, as pessoas haviam ido, em sua maioria, trabalhar pela manhã e tarde, com a noite dominada pela luz dos televisores nas salas de cada uma das residências. Para muitos aquele realmente foi um dia como qualquer outro, mas não em um apartamento igual a vários outros. Nesse indistinto apartamento Agares, agora com um ano e três meses, havia proferido sua primeira palavra e o lar festejava.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8220;Amo&#8221;<br />
<span id="more-185"></span>
</p>
<p style="text-align: justify;">Foi apenas uma singela palavra e seus pais, apesar de felizes, não deram tanta importância à palavra quanto ao fato de ter sido dita. Mas o vocábulo proferido instintivamente iria ter um peso maior que qualquer outra coisa na vida da criança. Mais velho ele provavelmente pensaria que talvez algo maior que o instinto houvesse o levado a dizer aquilo, se um dia houvesse sabido qual foi sua primeira tentativa de interação sonora articulada com o mundo.</p>
<p style="text-align: justify;">E ele amou cedo. Quando criança amava seus pais, amava seus amigos, amava o sol brilhando no céu azul e a água fria que caía das nuvens cinzas, formando poças que pulava por cima. Amava os desenhos que passavam pela manhã na TV, amava a professora que encontrava toda tarde e amava esparramar tintas coloridas nos papéis durante a tarde. Amava o tempo que passava com os pais durante a noite, amava quando não estavam cansados e jogavam com ele durante a noite. Quando não podiam jogar, amava simplesmente ficar deitado em seus colos enquanto assistiam seus próprios programas na televisão.</p>
<p style="text-align: justify;">Era tudo bonito e perfeito, pois se algo que não amava não estivesse ali havia sempre milhares de outras coisas.</p>
<p style="text-align: justify;">Um dia qualquer, como aquele em que havia dito sua primeira palavra, ele foi à escola e passou a tarde na companhia de seus amigos brincando, pintando, modelando e aprendendo com todo o processo. Fez algo um pouco diferente aquele dia: estava com vontade de ir ao banheiro na hora do intervalo, e assim o fez. Quando foi ao refeitório, lancheira na mão com o lanche carinhosamente preparado por sua mãe, encontrou todos os bancos da mesa em que costumava sentar ocupados.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8220;Bem, vou me sentar com meus outros amigos&#8221; &#8211; pensou. E sentou-se em uma outra mesa, conversando animadamente como sempre. Não estava com seus amigos de costume, mas todos ali o tratavam tão bem quanto ele os tratava e isso o deixava tão feliz quanto estaria se estivesse na mesa em que costumava comer.</p>
<p style="text-align: justify;">O refeitório era barulhento: uma mesa, com seis crianças, era barulhenta e havia ali ao menos cinco delas. Porém houve um daqueles raros instantes em que um véu de silêncio encobre tudo. E apenas uma voz ecoa, solitária e clara, antes de ser novamente engolida pelos rumores. E aquele silêncio mudou sua vida. Ou ao menos iniciou as mudanças.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8220;Ele podia se sentar lá sempre, ele é muito cha-&#8221;</p>
<p style="text-align: justify;">Não ouviu mais, mas não foi mais necessário. Lágrimas vieram aos seus olhos, tornando a maçã vermelha que segurava em uma grande massa disforme. Naquele momento não tinha mais vontade de comer, de beber, de conversar, de estar ali. Levantou-se e saiu correndo, sendo notado por poucos enquanto fazia isso. Não olhou para trás para ver se os amigos &#8211; ou ao menos quem sempre considerou como amigos &#8211; estavam bem ou se iriam ficar preocupados com ele. Não iriam.</p>
<p style="text-align: justify;">Correu até a grade atrás do parque de areia da escola e tentou subir por ela. Não sabia o que estava fazendo, não sabia para onde queria ir, mas sabia que não queria estar ali. Desde o momento em que havia nascido ele havia sido querido. E também tratava todos com o mesmo amor que recebia, ou julgava receber. Mas ali, pela primeira vez em seus poucos anos de vida, ele parecia não ser bem vindo, e não entendia isso. Suas mãos perderam a força quando estava a um metro e meio do chão. Caiu na areia. Ficou ali até o fim do intervalo, quando a professora contou os alunos e percebeu que faltava um deles. Mas ela nem sabia quem era, a princípio.</p>
<p style="text-align: justify;">No dia seguinte não foi à escola. Não amava mais aquele lugar. Era estranho não amar algo, mas não amava. Era manhã e não amava. Tarde. Não amava. Noite. Não amava. Dormiu.</p>
<p style="text-align: justify;">Logo os dias se tornaram novamentes dias quaisquer, em que repetia o de sempre, mesmo não amando sempre. Algumas vezes já não sentia vontade de ir à escola, mas em geral gostava daquilo tudo e fazia questão de poder estar presente. Sabia que, ainda que nem todos o amassem, a maioria ainda gostava ou estava aberta a gostar dele. E ele logo voltou a amar aqueles que participavam de sua vida, que o procuravam para conversar, jogar bola e apostar corrida nos intervalos do recreio. Anos se passaram assim.</p>
<p style="text-align: justify;">Até o ano em que o amar assumiu uma forma ligeiramente diferente do normal. Um amar mais forte, uma vontade maior ainda de estar com uma certa pessoa. E disse que amava uma certa garota, que disse que também o amava. As duas crianças realmente pareciam se amar, andando de mãos dadas nos intervalos. Agares sempre comprava um doce na cantina com os trocados que economizava pedindo um lanche mais barato para dar para a garota, pois amava o sorriso dela quando ficava satisfeita.</p>
<p style="text-align: justify;">Um dia ele não comprou o doce pois havia perdido o dinheiro do lanche, e ela ficou triste. Uma dor enorme passou por seu coração, e ele prometeu a si mesmo nunca mais deixar aquilo acontecer de novo. No dia seguinte sua mãe não lhe deu o dinheiro do lanche.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8220;Porquê eu ficaria com você se você não vai me dar doces?&#8221;</p>
<p style="text-align: justify;">Doces. Ele não entendeu a princípio, pois ela estava com ele por também amá-lo. Doces. Ou talvez não houvesse sido exatamente assim. Doces. Talvez ela nunca houvesse o amado. Nunca mais comprou doces para ninguém.</p>
<p style="text-align: justify;">Vários anos se passaram, com dias iguais a quaisquer outros se repetindo. Aprendeu a dizer que amava com certo cuidado, certificando-se que as pessoas a quem dizia isso não estavam com ele pelos doces &#8211; afinal já não os dava mais. Viu o amor que tinha por várias coisas morrer aos poucos: entendeu que as gotas geladas o deixavam gripado, teve uma intoxicação alimentar com seu prato preferido, viu que as pessoas não faziam o mesmo esforço para gostar dele como ele fazia para gostar delas. Aprendeu a não se importar, pois não podia não amar e se afastar. Não podia escolher estar envolto na luz do amor e deixar esquecido no escuro tudo aquilo que não mais amava, pois passaram a ser muitas coisas. Aprendeu que o cinza é, tristemente, necessário.</p>
<p style="text-align: justify;">Um dia novamente a luz do amor brilhou forte, mais forte que jamais havia brilhado. Novamente por uma garota, que não queria doces, que parecia o amar pelo que era e que parecia capaz de fazer suas sombras desaparecerem por completo. Os dois brilhavam tão forte que ele se sentia novamente uma criança, tendo voltado aos tempos em que todos o amavam e tudo o que não amava podia ser deixado para trás.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8220;Amo&#8221;</p>
<p style="text-align: justify;">Os dois pronunciavam esta única palavra simultaneamente, como se fosse sua primeira palavra novamente. Amavam a água fria que caía das nuvens cinzas, amavam passar os dias na cama resfriados juntos, amavam perder os dias vendo desenhos, amavam gastar pouco dinheiro com tintas baratas que eram jogadas sem compromisso sobre folhas de papel de todas as cores. Amavam colar em suas paredes os desenhos do outro e olhar aquela bagunça como a mais linda pintura que existia. Amavam fazer doces um para o outro</p>
<p style="text-align: justify;">Mas o mundo não estava preparado para aquele amor. O mundo era cinza e não podia tolerar aquela mancha branca. O mundo era paciente e sabia que em algum momento teriam que colocar a mão para fora da esfera iluminada. E o mundo estaria esperando. O mundo, acima de tudo, tinha forças para puxar mãos. Agares errou ao achar que podia estender a luz. Quando o brilho diminuiu em um ponto surgiram sombras.</p>
<p style="text-align: justify;">O fim não veio como uma reclamação devido aos doces terem se acabado. O fim veio com a inveja do mundo cinza, que achava que aquele borrão claro era uma aberração e decidiu que um era como uma droga para o outro. E talvez fossem, mas morreriam felizes se continuassem a aumentar a dose como faziam. Pessoas lutaram para afastá-los e o próprio tempo pareceu jogar as cartas que tinha para mantê-los longe. Eles lutavam, mas as sombras cada vez mais se espalharam.</p>
<p style="text-align: justify;">Amizades são como flores, morrem se não forem regadas. E seu amor por ela era como uma epidendrum nocturnum, exigente e apenas florescendo brevemente. Agares não morava perto de sua orquídea e deixou de rega-la. Ele culpou unicamente a si mesmo quando ela morreu. Aprendeu que quanto maior o amor maior era a dor que se seguia. Aprendeu a amar o mínimo necessário para que continuasse chamando aquilo de amor.</p>
<p style="text-align: justify;">Vários anos se passaram, e o homem Agares mais uma vez, mais de uma vez, disse que amava. Com todas as reservas, com todos os cuidados, com toda a censura, amava. Mas era um amor tão escondido dentro de si mesmo que já não era suficiente para quem estava do lado de fora chamar de &#8220;amor&#8221;. Para ele era importante &#8211; os restos de luz que ainda tinha &#8211; mas se tornou desnecessário e indesejado. Não queriam flores murchas. Ele entendia. Provavelmente se sentiria da mesma forma. Mas havia aprendido que era ruim ser de outra forma.</p>
<p style="text-align: justify;">Abriu as mãos e as pétalas mortas se foram.</p>
<p style="text-align: justify;">Aprendeu a gostar sem amar. A dizer &#8220;amo&#8221; sem amar. Aprendeu que não queria mais aprender. E, se soubesse qual havia sido sua primeira palavra, provavelmente desejaria ter nascido mudo.</p>
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		<title>A Moça que Dormia</title>
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		<pubDate>Thu, 22 Jan 2009 03:02:21 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Acordou e olhou, feliz, o delicado e sereno rosto que descansava no travesseiro ao lado, embalado por sonhos tranqüilos. Levantou-se então, com um sorriso, e foi até a cozinha preparar o seu café da manhã e o da moça, que não veria acordar mas desejava ao menos deixar algo simbólico como agrado. Fazia isso todos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Acordou e olhou, feliz, o delicado e sereno rosto que descansava no travesseiro ao lado, embalado por sonhos tranqüilos. Levantou-se então, com um sorriso, e foi até a cozinha preparar o seu café da manhã e o da moça, que não veria acordar mas desejava ao menos deixar algo simbólico como agrado. Fazia isso todos os dias e acordar todas as manhãs olhando aquela face era toda a recompensa que poderia desejar.<br />
<span id="more-91"></span></p>
<p>Durante o trabalho olhava o relógio, ansioso pelo final do expediente, e contava cada minuto que faltava para chegar em casa e vê-la novamente. Esta semana, acreditava, trabalhava mais que o normal e dificilmente conseguiria chegar em casa a tempo de encontrá-la acordada. Ainda era manhã e sua mente estava a quilômetros do monitor que piscava à sua frente, correndo por gramados intermináveis de mãos dadas com a mulher.</p>
<p>Meio dia. Pegou o telefone, pediu para que o almoço da mulher fosse entregue em sua casa e no caminho do restaurante mostrou orgulhosamente uma foto do último feriado, em que posava abraçado com sua amada, a todos os amigos que já haviam se acostumado com os intermináveis discursos que fazia sobre sua companheira. Todos sabiam da história dos dois, como haviam se conhecido, como eram perfeitos um para o outro, mas ele ainda se punha a contar novamente as mesmas coisas.</p>
<p>A tarde se passou igual à manhã e quando finalmente terminou de trabalhar, já tarde da noite, pôs-se a caminho de casa. Ao chegar abriu cuidadosamente a porta e foi até a cozinha, onde esquentou o que havia sobrado do almoço e comeu. Passou silenciosamente pelo quarto, apenas olhando por uma fresta na porta e vendo que sua esposa já dormia profundamente. Tomou seu banho e somente então deitou na cama, tomando todo o cuidado para não acordá-la. Observou sua respiração ritmada e os contornos de sua boca, que beijou com leve ternura. Então apagou a luz.</p>
<p>Fazia muito frio, mas não ousou puxar a coberta que abraçava. Parte de sua mente dizia que isso acordaria a mulher, mas outra parte sabia que tudo que havia ali era a coberta. Sabia que havia pegado o almoço gelado quando chegou em casa e jogado o café que deixou para trás de manhã, intocado, pelo ralo da pia. Sabia que aquela foto que carregava na carteira apenas o mostrava de frente à uma praia. Mas essa parte da mente havia perdido a voz à muito tempo.</p>
<p>Beijou a testa da moça. E dormiu acariciando sua coberta.</p>
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		<title>Correntes</title>
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		<pubDate>Wed, 21 Jan 2009 00:40:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>D</dc:creator>
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		<category><![CDATA[2008]]></category>
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		<description><![CDATA[Ouviu a corrente se arrastar. Foi um ruído quase imperceptível, e provavelmente já estava o acompanhando a algum tempo, sem que seus ouvidos percebessem, sem que sua pele notasse o toque gelado do metal, sem que sua mente reagisse. Virou-se e pela primeira vez pode ver claramente que o prendiam. Ou pelo menos julgou ser [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ouviu a corrente se arrastar. Foi um ruído quase imperceptível, e provavelmente já estava o acompanhando a algum tempo, sem que seus ouvidos percebessem, sem que sua pele notasse o toque gelado do metal, sem que sua mente reagisse. Virou-se e pela primeira vez pode ver claramente que o prendiam. Ou pelo menos julgou ser a primeira vez.</p>
<p>Como haviam o prendido por tanto tempo? Como estava sendo sufocado sem oferecer o mínimo de resistência? Como havia deixado que aquelas amarras o abraçassem e lhe acompanhassem até tão longe?<br />
<span id="more-28"></span></p>
<p>Lembrava claramente que não esteve sempre ali, que antes vivera em outros lugares, mas uma densa névoa cobria sua memória, impedindo que experimentasse os detalhes. Mas pela primeira vez percebia a névoa, notava que havia algo além do que podia ver.</p>
<p>Os elos sobre suas costas ainda estavam gelados, provocando uma sensação de desconforto. Não deviam estar ali por muito tempo, mas ele não tinha mais noção do que seria um período longo ou curto.</p>
<p>Era como se acordasse de um coma, cercado de coisas, sensações e pessoas estranhas. Pessoas sem face, sem cor, caminhando cegamente enfileiradas. E ele estava na fila. Com horror percebeu que segurava a corrente da pessoa da frente como se fosse uma guia.</p>
<p>Largou-a e correu. Não tentaram alcançá-lo, mas não parou até não ver mais nada, até se perder no meio da névoa e não ter mais ar nos pulmões e força nas pernas para continuar correndo.</p>
<p>Queria gritar, mas não conseguiu emitir nenhum som ao abrir a boca seca. Jogou-se no chão e abraçou as pernas, sentindo uma dor nos olhos; lágrimas, que há muito haviam sido esquecidas, brotaram novamente, brilhando na fraca luz do ambiente.</p>
<p>Tentava lembrar-se de como havia terminado prisioneiro. As correntes estavam presas por três pequenos cadeados em volta dele, de aparência tão frágil que teve a impressão de poder quebra-los facilmente se assim quisesse. Levou as mãos até eles e hesitou.</p>
<p>Sentiu algo no bolso da calça velha que vestia. Uma chave.</p>
<p>Estremeceu e chorou como não se lembrava nunca ter chorado. Estava perdido, sem lembranças e sem saber para onde deveria ir. E teve medo de si mesmo.</p>
<p>Porque teria escolhido acorrentar-se?</p>
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		<title>A Espera</title>
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		<pubDate>Tue, 20 Jan 2009 19:38:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>D</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Naquela noite, soturno, voltou os olhos à lua que deveria estar sobre as nuvens. Não conseguia enxergar seu brilho, mas seu coração tinha a certeza que estava lá, em algum lugar, olhando para ele e sorrindo carinhosamente, esperando a tempestade que começara mais cedo passar para acariciá-lo com seus braços prateados.
E todas as noites ele [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Naquela noite, soturno, voltou os olhos à lua que deveria estar sobre as nuvens. Não conseguia enxergar seu brilho, mas seu coração tinha a certeza que estava lá, em algum lugar, olhando para ele e sorrindo carinhosamente, esperando a tempestade que começara mais cedo passar para acariciá-lo com seus braços prateados.</p>
<p>E todas as noites ele olhava para o céu na esperança da incômoda umidade ter se dissipado, e todas as noites retornava apenas com as lágrimas lavadas pela água que, incessante, vinha ao encontro de seu rosto. Mas sabia que a lua estaria lá, e vivia cada dia com a certeza que se revelaria no próximo.</p>
<p>Um dia. Uma semana. Um mês.<br />
<span id="more-13"></span></p>
<p>Já não sabia mais quanto tempo havia se passado sem vê-la. A face brilhante se apagava em sua memória eternamente nublada. A idéia, que havia uma Lua, permanecia lá, mas era cada vez mais distante. Havia apenas a chuva, tangível, que caía incessantemente. Não havia pássaros, não havia pessoas, não havia nenhuma outra luz na escuridão. O único ruído era de sua respiração. E da chuva.</p>
<p>Mais um dia. Mais um mês. Mais um ano.</p>
<p>Ainda executava religiosamente aquele ritual de olhar para cima apenas para seus olhos serem cobertos pela água. Não lembrava mais o que procurava, apesar de ter a certeza que procurava algo. Algo distante e brilhante, provavelmente chamada Lua, que estaria acima do céu que caía todos os dias sobre seu rosto. Já não sentia a tristeza de não ver seu brilho, pois não se lembrava de como era, já não tinha saudades de cantar na noite, pois dias e noites eram igualmente cinzas.</p>
<p>E um ano mais se foi. E outro. E muitos mais.</p>
<p>Ele já não olhava mais para cima e mal percebeu que as nuvens já não eram mais tão densas. Estava ocupado demais, construindo um abrigo pois já não suportava mais a água caindo em seu corpo, para perceber que tímidos traços de claridade começavam a cortar as sombras no céu.</p>
<p>Finalmente a lua apareceu, junto com todas as estrelas, e olhou para baixo ansiosa para rever seu preferido. Depois de tanto tempo finalmente ele voltaria a compor canções e dançar sob seus braços.</p>
<p>E ele, nesse momento, deitava satisfeito olhando para o teto da cabana. A chuva não iria mais tocá-lo. Nunca.</p>
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		<title>Pecados</title>
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		<pubDate>Thu, 13 Nov 2008 02:18:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>D</dc:creator>
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		<category><![CDATA[2008]]></category>
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		<category><![CDATA[erótico]]></category>

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		<description><![CDATA[Ainda nevava levemente, e o vento gelado corria pela imensa área que um dia fora coberta por exuberante vegetação. Mas o ar agora não encontrava qualquer resistência ao movimento: os poucos troncos quebrados que restaram jaziam sob a espessa camada de água cristalizada. O manto branco escondia o retrato da destruição que tomara lugar naquele [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="justify">Ainda nevava levemente, e o vento gelado corria pela imensa área que um dia fora coberta por exuberante vegetação. Mas o ar agora não encontrava qualquer resistência ao movimento: os poucos troncos quebrados que restaram jaziam sob a espessa camada de água cristalizada. O manto branco escondia o retrato da destruição que tomara lugar naquele vale à muito tempo atrás. Desde então o relógio havia se esquecido de marcar as horas. E o inverno se esquecera de ceder lugar à primavera.</p>
<p align="justify">Porém a antiga catedral ainda ocupava, como fora desde o início dos tempos, o mesmo lugar, suas duas torres saindo da neve como lanças negras desafiando a natureza. A única resposta que esta lhe dava era lançar lufadas gélidas adentro da janela, uma boca de vidro afiado como presas mas que jamais cortaram carne alguma: nenhum animal sobrevivera ao longo período glacial para se aventurar ali. As noites e dias passavam silenciosamente, exceto por alguns raros uivos dos lobos que habitavam as montanhas ao norte.<br />
<span id="more-162"></span>
</p>
<p align="justify">O vento descia, incerto e turbulento, sem pisar nos degraus úmidos da escadaria, logo se perdendo na escuridão. As paredes ainda suportavam as tochas, agora apagadas, colocadas ali para que os visitantes não tropeçassem ao subirem a escadaria espiralada. A medida que o ar penetrava mais e mais nas entranhas, mais hesitava em continuar o caminho. Ao finalmente passar por um vão e chegar a um dos salões, parecia se estagnar como um estrangeiro que contempla, parte horrorizado e parte estupefato, o calabouço em que passará o resto de seus dias &#8211; se não mais que isso.</p>
<p align="justify">De fato o ar estava condenado a ficar preso ali, por inúmeras eras, junto à poeira milenar que dava uma aparência aveludada ao mármore sem vida do chão. Em dias a muito perdidos aquela sala servira como biblioteca e Loja do templo. Agora os preciosos volumes descansavam sobre as prateleiras de mogno como ossos descansavam em seus túmulos. As páginas de volumes originais, escritas a mão, haviam a muito perdido a flexibilidade e prontamente se reduziriam a pó se tocadas indevidamente, se juntando à poeira do ambiente.</p>
<p align="justify">Ali, ao contrário da superfície, ainda abrigava alguns traços de vida: Uma viúva-negra repousava sobre os delicados mas mortais fios de seda. A aranha era a senhora absoluta do lugar, e a ampulheta vermelha era um aviso que o veneno não demoraria a transformar qualquer um preso na teia, que cobria toda a saída para os corredores, na próxima refeição do minúsculo aracnídeo. Como que para reforçar isto, os ossos de algum pequeno mamífero &#8211; provavelmente um insignificante rato &#8211; se empilhavam em um dos cantos da teia.</p>
<p align="justify">O ar do corredor parecia ser de outra espécie que seu parente do outro lado, pois parecia carregar o peso dos anos que existira. O ar da biblioteca era ainda jovem e, mesmo estagnado, não era denso como o do corredor. Quantas pessoas já o haviam respirado? Quantas vezes já não preenchera os pulmões que entoavam canções de adoração, e quantas vezes não chicoteara cordas vocais que oscilavam pela agonia da tortura?</p>
<p align="justify">Inúmeras portas, fechadas por alguma força sobrenatural, permeavam as paredes espaçadas caoticamente &#8211; ao menos assim pareceriam ao olhar de todos que se aventurassem em chegar ali. Mas na mente tortuosa do arquiteto todas aquelas entradas eram distribuídas harmoniosamente seguindo alguma lógica já esquecida. Mesmo seladas as portas pareciam deixar transbordar espectros de seus conteúdos, e o ar parecia se encher de lamentações, gritos, choros e gemidos. Mas as sensações &#8211; que existiam mesmo sem alguém para senti-las &#8211; desapareciam com a mesma eterealidade com que surgiam. Poucos presenciaram as sensações durante toda a existência da construção e, dentro destes poucos, menos ainda viveram posteriormente &#8211; um erro que lhes custara a sanidade.</p>
<p align="justify">As vezes o corredor era iluminado por uma pequena lanterna azul, que guiava os incautos pelas profundezas, sem que percebessem que se perdiam em um imenso labirinto, em que o caminho se ramificava como alvéolos pulmonares. Então a luz se dissipava, deixando as confusas pessoas à mercê de suas próprias inseguranças, fatalmente fazendo o papel de minotauro. Mesmo agora uma adaga cuja lâmina lembrava uma serpente descansava sobre uma mancha de um vermelho quase negro, certamente sangue que escolhera o piso como novo lar, tendo sido expulso do corpo em que nascera contra sua vontade.</p>
<p align="justify">Neste ponto peço desculpas ao leitor, mas como autor releio o período anterior e vejo um interessante duplo sentido: fora expulso contra sua vontade ou nascera contra sua vontade e por isso fora expulso? Como narrador onisciente apenas posso afirmar que não sei. Mas voltemos agora à caminhar junto ao vento, que não espera como o tempo e que apaga maldosamente as tochas, deixando os viajantes sem enxergarem nada mais a não ser seus próprios interiores.</p>
<p align="justify">Os passos do ar seguem, passando por mais inúmeros caminhos escuros. Ele mesmo se perderia naquela vastidão se não conseguisse se expandir preenchendo todos os locais que não eram selados.</p>
<p align="justify">Mesmo o emaranhado de corredores tinha um princípio &#8211; que pera o ar vindo da superfície era o fim: a nave principal, em que, quando fora construída, eram celebradas as missas e centenas de fiéis se reuniam. Mal sabiam do grande ódio que foram alimentando, suas orações corrompendo o coração aos poucos. As vozes que convidavam o sagrado aos poucos seduziram os anjos e os empossaram como demônios. Os enormes vitrais agora recobriam, em cacos, o chão e não mais as laterais. Pelos vãos agora abertos um pouco da neve invadia o salão.</p>
<p align="justify">Mas até mesmo a neve que soterrara a construção e aniquilara toda vida do vale não se atrevia a invadir o lugar. Não haviam mais bancos, e os retratos da via sacra haviam sido substituídos por quadros de vários instrumentos de tortura em funcionamento, pintados de forma doentiamente fiel. Certamente o artista tinha predileção pela dama de ferro, que fora meticulosamente esquematizada. As imagens dos santos não mais repousavam sobre seus pedestais, que agora suportavam esculturas feitas com a carne e ossos dos antigos fiéis. Apesar do grande retrato de carnificina, o ar não tinha o fedor de matéria morta: uma suave fragrância de lótus eternamente perfumava o local. No altar, dois incensos queimavam sem pressa. Dois pequenos rios de líquido, um de coloração rubro-claro e o outro de um vinho escuro, desciam acompanhando as laterais e ambos desaguavam em um pequeno lago no centro do lugar.</p>
<p align="justify">Um cálice quebrou o silêncio ao ser mergulhado no líquido. Uma mão pálida o segurava, os dedos finos parecendo mais frágeis que a peça de cristal. Em um movimento sutil levou o recipiente até próximo ao nariz e provou o cheiro com a mesma habilidade que a língua provaria o líquido. Este tingiu os lábios do homem, fazendo com que contrastassem fortemente com a pele imaculadamente branca. Os longos cílios negros pareciam ainda maiores devido ao fato das pálpebras estarem cerradas, não para proteger os olhos, pois eram finas e transparentes de mais para bloquear a luz, mas para que ele pudesse concentrar seus sentidos no líquido que agora lhe inundava a boca. Ainda saboreou longamente a mistura antes de, com um pouco de arrependimento, engoli-la.</p>
<p align="justify">&#8220;Não pense que não o percebi entrar. Na verdade senti sua presença a muito, muito tempo.&#8221; O homem atirou estas palavras ao vento, literalmente. Cada pequeno fio do escasso pêlo em seu corpo havia percebido a suave vibração do ar à sua volta. &#8220;Visitas, você diz? Não, nada seria tolo ao ponto de entrar aqui, ainda que houvesse algo para tentar. Não pense que sou ingênuo para acreditar nisto!&#8221; Com isso, o homem novamente aproximou o cálice de sua boca. Porém, subitamente, a mão fraquejou e a peça deslizou de sua mão, indo partir-se em milhares de pequenos cacos ao atingir o chão.</p>
<p align="justify">&#8220;Surpreso em me ver?&#8221; A voz suave de uma mulher indagou e, sem a resposta, continuou: &#8220;Nada mudou aqui, exceto que está mais empoeirado. E a neve não costumava passar de alguns centímetros.&#8221; A mulher se aproximou e pegou um pedaço da taça quebrada. &#8220;E vejo também que continua sem cuidado. Alguém poderia se cortar com os estilhaços.&#8221; Thanatos sentiu o vidro tocar sua garganta e, involuntariamente, prendeu a respiração. O vidro gelado encostado em seu pescoço o surpreendera a princípio, e agora lançava um turbilhão de sensações em sua corrente sanguínea, a medida que o fragmento afiado era pressionado contra sua frágil pele, fazendo surgir um tímido filete de sangue.</p>
<p align="justify">Ele ainda não olhara para a mulher, mas sabia exatamente quem era. Somente uma pessoa sabia chegar até aquela sala, e ainda ser capaz de surpreendê-lo. Ele não esperava que entrasse ali, e ele se viu perdendo o controle de seus batimentos cardíacos. Seus pensamentos se aceleravam à mediada que o vidro abria a pequena fenda em seu pescoço vulnerável.</p>
<p align="justify">O sangue escorria pela peça transparente, indo se acumular em uma das extremidades. A voz sussurrou ao lado de seu ouvido, não somente enviando o som como uma corrente elétrica por seu corpo: &#8220;Não seria bom deixar seu sangue se desperdiçar caindo no chão como seu vinho, não acha?&#8221; A peça vítrea subitamente deixou seu pescoço, e ele virou-se lentamente, abrindo os olhos, e pela primeira vez viu Millenia, que agora estava deslizando o vidro sobre sua própria língua, saboreando o sangue com os olhos fechados, quase em transe.</p>
<p align="justify">As vestes negras contrastavam com o branco-neve de sua pele e o vermelho-carmim de seus sedutores lábios entre-abertos. Os longos cabelos lhe cobriam metade da face, sendo apenas distinguíveis do vestido por terem o brilho de uma pérola negra. Com a cabeça levemente abaixada e, agora com as pálpebras levantadas, os olhos fixos em um ponto dentro de seu próprio corpo, Millenia aparentava mais ser uma boneca de porcelana que uma pessoa. O vestido, cuja fronte era elaboradamente bordada e laços de cetim negro unindo o tecido, ainda reforçava mais essa semelhança. A saia longa escondia completamente as pernas e provavelmente seria por si só a inveja de todas em um baile medieval, com suas dobras precisas e textura aveludada.</p>
<p align="justify">As mãos seguravam o pequeno estilhaço como se fosse um pequeno pedaço de ouro, e apenas depois do vidro estar completamente limpo que vieram repousar, uma sobrepondo a outra, no centro de seu peito, pouco acima dos seios. Os lábios ligeiramente curvados para cima, e deliberadamente cobertos por uma fina camada de sangue, deixavam clara a satisfação dela.</p>
<p align="justify">&#8220;Não sei o que dizer,&#8221; balbuciou Thanatos, &#8220;e não vou tentar esconder minha&#8230;&#8221; Parou por um instante e levou a mão direita até o corte no pescoço, molhando a ponta do indicador com sangue. Olhou o dedo e continuou, &#8220;&#8230; minha alegria.&#8221;</p>
<p align="justify">O sorriso se tornou ainda mais nítido, pois Millenia esperava essa reação. E ela sabia que Thanatos sabia o que ela esperava.</p>
<p align="justify">&#8220;Não adiantaria tentar escondê-la &#8211; senti o gosto dela em seu sangue. Quanto a não saber o que falar&#8230; Apenas me beije&#8221;</p>
<p align="justify">Os ponteiros do relógio mais uma vez paravam, e o momento em que os lábios se encontrariam parecia não querer chegar. Porém ao se tocarem lentamente, iniciaram uma cadeia de sentimentos furiosa como uma onda quebrando nos recifes. Os lábios se alternavam entre prenderem uns aos outros, e as línguas timidamente se tocavam. Aos poucos foram ousando mais, e as mãos seguravam os corpos juntos nos passos iniciais da dança proibida da paixão.</p>
<p align="justify">A boca dele descia pelo pescoço lentamente, beijando suavemente, lambendo, alternando algumas mordidas e ocasionalmente sugando a pele de Millenia, e ocasionalmente atingiu os seios, que contornou deixando que a língua deslizasse.</p>
<p align="justify">Millenia,já com respiração ofegante, não conseguiu conter um gemido de prazer quando Thanatos tomou em sua boca o mamilo enrijecido, sugando-o como se fosse dali sair seu alimento, ao mesmo tempo em que tomava entre dois dedos o mamilo do outro seio.</p>
<p align="justify">Ele a deitou sobre o altar e continuou a estimular alternadamente os seios à medida que direcionava a mão ao abdômen da mulher, e, sem esperar que ela recobrasse os sentidos, tocou no ponto mais sensível dela sobre o pano fino da saia, desta vez extraindo um gemido muito mais alto que os anteriores. Continuou a toca-la até que sentiu a umidade através do tecido, e então, sem mais conseguir se conter, tirou a boca dos seios e o obstáculo das roupas dela.</p>
<p align="justify">Posicionando a cabeça entre as pernas, começou a lambe-la e sugar o vinho lascivo, movendo a língua em círculos em volta do clitóris, tocando a parte superior e inferior alternadamente. Enquanto fazia isso olhava para o rosto da mulher, vendo a excitação que escapava dos olhos fechados e lábios entreabertos.</p>
<p align="justify">Atrás das pálpebras fechadas passavam milhares de imagens misturadas. Como desejara sentir novamente aquele cheiro, beber daquela fonte proibida, sentir o calor infernal daquele corpo novamente junto ao seu. Mas, ao mesmo tempo ainda conseguia sentir o corte gelado da lâmina em suas costas, e a ferida parecia abrir-se novamente agora que estava lá.</p>
<p align="justify">Sentiu um de seus dedos molharem-se ao tocá-la, e sua mente viajava junto aos gemidos. Olhou para baixo, vendo seus dedos sumirem naquela peça proibida e ressurgirem, brilhantes. Como ela se atrevia, depois de tudo. Como ainda tinha coragem de tentar domá-lo, e como ele se sentia tentado à se entregar naquela hora. Admirava-se, sinceramente, com a mulher. Mas ela era tola.</p>
<p align="justify">Com um movimento rápido, aproveitando a distração de Millenia, Thanatos a puxou do altar e arremessou-a ao chão. O corpo nu se projetou em direção aos pequenos rios e rolou, graciosamente, ao tocar o piso. Ele sorriu enquanto ela levantava, observando o corpo arrepiar-se, e caminhou lentamente até ela.</p>
<p align="justify">“Ousado. Inesperado. Você melhorou.” Foi o que a mulher disse. Pouco depois de ter jogado as palavras no ar sentiu sua garganta ser esmagada e seu corpo suspenso, o mundo ameaçando apagar-se à seu redor. Consciente, porém, sentiu os lábios novamente alcançarem os seus. Levou suas próprias mãos ao pescoço instintivamente, lutando em vão para permitirem que enchesse seus pulmões de ar.</p>
<p align="justify">Suspensa à sua frente Millenia parecia completamente indefesa, porém ele sabia que aquela aparência era cuidadosamente cultivada pela mulher. Empurrando-a contra uma parede e mantendo uma das mãos no pescoço, olhou tomado de luxúria aquele corpo. Diminui um pouco a força que aplicava, tomando cuidado para que ela não desmaiasse, e ao mesmo tempo deslizou um dedo pelos lábios, pescoços, seios e barriga, sentindo a pele macia.</p>
<p align="justify">“Não. Eu não melhorei. Você, por outro lado, me subestimou.” Largou a mulher, que caiu de joelhos inspirando profundamente. Ele então caminhou até suas costas e a abraçou pelas costas, levantando-a novamente e virando-a em direção à parede. Suas mãos agora acariciavam o pescoço, e logo passou a beijá-la.</p>
<p align="justify">O cheiro dos cabelos o embriagavam e por pouco conseguia manter a resolução de permanecer no controle da situação. Beijava os ombros da mulher, que não oferecia qualquer resistência, e acariciava os cabelos do homem, puxando o rosto contra seu corpo. Quando sentiu a boca se dirigir às costas, inclinou-se para frente, apoiando o rosto na parede. Nesse momento sentiu suas mãos serem atadas, e um arrepio subiu-lhe pelo corpo.</p>
<p align="justify">“Acha que cordas vão me prender?”</p>
<p align="justify">“As cordas são apenas uma desculpa para soltá-la. Isso sim será a parte interessante. Mas aproveite o momento”, disse Thanatos agora aproximando a boca da parte interna das coxas. “Ajoelhe-se.”</p>
<p align="justify">Millenia obedeceu, pressionando o pélvis contra o rosto do homem. Sentia a língua penetrar-lhe umedecendo seu interior ainda mais, e moveu seu corpo de forma a ampliar as sensações. Estava acostumada a sempre estar no controle, e naquele momento se sentiu excitada com a situação diferente. O corpo começava a suar à medida que pressionava-se contra a língua e os dedos do homem sob ela. Quando começava a sentir seus músculos se contraírem ouvia o homem ordenar que parasse, para então recomeçar lentamente.</p>
<p align="justify">Thanatos brincava com ela deliberadamente, saboreando cada segundo como se fosse o último. Sentia o interior macio com seus dedos, e movimentava-os propositalmente tocando nos pontos mais sensíveis e obtendo como resposta gemidos cada vez mais altos. Sentiu novamente uma contração, e dessa vez acelerou mais ainda os dedos, fazendo com que Millenia gritasse ao mesmo tempo em que inundava sua boca. Em seguida saiu daquela posição, levantando-se enquanto a mulher continuava ajoelhada, ofegante.</p>
<p align="justify">“Estou apenas começando, Millenia”. Foi até uma das paredes e retirou uma grande faca decorativa de um suporte. Passou o dedo úmido pelo fio, misturando o gozo com seu próprio sangue, satisfeito. Ao virar encontrou a moça já de pé, observando-o desafiadoramente com as mãos amarradas atrás das costas.</p>
<p align="justify">“Agora você terá a chance de cortar as cordas. Não me decepcione muito”. Com isso ele avançou em direção à mulher, mirando a faca na altura de seu ombro. Millenia desviou do golpe com facilidade, como se já houvesse ensaiado aqueles movimentos várias vezes. Thanatos, porém, puxou seu cabelo e a trouxe para perto, colocando a lâmina à altura do pescoço e deixando com que deslizasse pela pele rosada da mesma forma que ela havia feito com o caco de vidro pouco antes.</p>
<p align="justify">Sentindo a lâmina fria, Millenia segurou a respiração. Sentiu o metal ser pressionado contra seu peito, arranhando-o porém não chegando a cortá-lo. Ao sentir o instrumento deixar seu corpo ela imediatamente jogou seu corpo para trás, contra o dele. O movimento súbito o pegou de surpresa e lhe tirou o equilíbrio, fazendo com que caísse para trás e largasse a faca.</p>
<p align="justify">Millenia segurou-a e tentou cortar a corda, porém as mãos presas a atrapalhavam. Recuperando-se, Thanatos derrubou a faca com um forte golpe e chutou-a para longe. “Muito devagar”, disse e ao mesmo tempo puxou uma corrente que pendia do teto. A mulher tentou correr até a faca, porém sentiu os elos gélidos agarrarem seu pescoço. Voltou-se para Thanatos.</p>
<p align="justify">“Não tenha pressa, Millenia, estamos começando a nos divertir agora. Venha.”</p>
<p align="justify">“Vai se arrepender quando estiver em minhas mãos” disse ela, aproximando-se com um sorriso e vendo-o retirar a roupa negra. Beijou a barriga do homem e acariciou com a lateral da face suas pernas. Tomou-o então em sua boca, engolindo-o por inteiro enquanto cravava as unhas no próprio corpo.</p>
<p align="justify">Thanatos sentia a língua tocar-lhe e estremecia, puxando ainda mais a corrente que prendia Millenia pelo pescoço. Sentia cada vez mais o prazer crescer, sentindo-se o senhor absoluto daquele momento. Estrangulava-a aos poucos, forçando com que ela o tomasse cada vez mais profundamente em sua boca, por vezes sufocando-a e tendo que deixar que recuasse e tragasse um bocado de ar. Olhou para ela: ajoelhada, passando a língua por seu pênis e tocando-se como conseguia com as mãos atadas, novamente excitada. Soltou a corrente.</p>
<p align="justify">Mesmo liberta Millenia não parou. Sem poder usar as mãos movia vigorosamente a cabeça e logo sentiu que o homem começava a estremecer e gemer. Já esperava o gozo quando este surgiu, e deixou propositalmente um pouco sujasse seu rosto e tomou o restante em sua boca, degustando-o como vinho.</p>
<p align="justify">Aproveitando o momento seguinte, vendo que Thanatos ainda não havia se recuperado, Millenia correu até a faca. Thanatos não tentou impedi-la, mesmo vendo que cortava as amarras.</p>
<p align="justify">Millenia jogou as cordas cortadas no chão, e retirou a corrente que envolvia seu pescoço. Levou uma mão até ele, sentindo o fino corte, observou os pulsos avermelhados e a lâmina ainda ligeiramente tingida pelo sangue e gozo. Em seguida seus olhos alcançaram os de Thanatos.</p>
<p align="justify">Os dois se encaravam, menos de um braço de distãncia separando os olhares ardentes. Millenia agiu primeiro, tentando acertar Thanatos com a faca. O gesto porém foi inútil, e Thanatos conseguiu segurar o braço antes que a lâmina o atingisse. Porém Millenia não cedeu. Colocava toda sua força no braço, conseguindo visualizar a ponta rasgando a pele do homem.</p>
<p align="justify">Thanatos por sua vez segurava os braços de Millenia e, movendo ligeiramente seu corpo para o lado, retirou-se da linha da arma e soltou a mulher, que quase caiu para frente, desequilibrada. Haveria caído, se não houvesse sido segurada por ele. Mas ela não deixaria que isso mudasse as coisas: assim que recuperou o equilíbrio investiu novamente contra ele, dessa vez mirando o peito. Thanatos desviou mais uma vez e, enquanto Millenia se recuperava, puxou a mulher para junto de si.</p>
<p align="justify">Ali estavam os dois, rostos a alguns dedos de distância, faca levantada tocando o queixo de Thanatos, que sorria. A faca caiu. As bocas se encontraram. Dessa vez, nenhum dos dois estava no controle.</p>
<p align="justify">Os corpos, já nus, foram juntos ao chão, rolando enquanto cada um dos dois tentava ficar por cima e controlar o ritmo dos beijos. Passaram pelos rios de vinho e seus corpos se enrubesceram com a bebida. Os dois beijavam-se desesperadamente, mordendo mutuamente os lábios e deixando com que as línguas se encontrassem dentro e fora das bocas. Eram uma pessoa só, unidos pelo desejo do momento.</p>
<p align="justify">Millenia sentia o calor de Thanatos a invadindo, e tentava ainda mais sugá-lo para si mesma. O suor, saliva e gozo dos dois se misturavam. Thanatos sentia o conforto e o calor reconfortante da mulher, acolhendo-o e gritando desesperadamente por mais. Ele também gritava por mais.</p>
<p>A mulher deitou, puxando-o com ambas as pernas e braços, engolindo-o de todas as formas possíveis e deixando também que seus lábios e seios fossem engolidos pelos lábios e mãos dele. Ele, por sua vez, puxou-a para cima de si, acompanhando os movimentos dela com seus próprios, de mãos dadas e dedos entrelaçados. Ambos levantaram-se, jogando-se contra paredes e apoiando-se no altar enquanto sentiam seus corpos tornarem-se um.</p>
<p align="justify">A faca, esquecida no chão, era a única testemunha daquele momento, que durou até nenhum dos dois ter mais forças para permanecerem de pé e desabarem, juntos e abraçados, ao chão.</p>
<p align="justify">E, pela primeira vez, dormiram juntos embalados pelos seus pecados.</p>
<p><a rel="attachment wp-att-163" href="http://diegolima.org/rpp/?attachment_id=163">Pecados &#8211; Download em PDF</a></p>
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		<title>Dia Chuvoso</title>
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		<pubDate>Sat, 29 Jul 2006 19:37:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>D</dc:creator>
				<category><![CDATA[Textos]]></category>
		<category><![CDATA[2006]]></category>
		<category><![CDATA[contos]]></category>
		<category><![CDATA[erótico]]></category>

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		<description><![CDATA[Ela estava sentada com seu bloco de folhas em seu colo, e um lápis na mão. Porém o lápis estava estático como seus olhos, fixos em algum ponto distante além das nuvens que começavam a cobrir o céu. Um vento começava a soprar,  criando ondas na grama ao redor da garota, anunciando que logo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify">Ela estava sentada com seu bloco de folhas em seu colo, e um lápis na mão. Porém o lápis estava estático como seus olhos, fixos em algum ponto distante além das nuvens que começavam a cobrir o céu. Um vento começava a soprar,  criando ondas na grama ao redor da garota, anunciando que logo uma tempestade iria cair sobre a terra.</p>
<p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify">Um pingo caiu sobre o bloco que a garota segurava, molhando o grafite e ameaçando borrar o desenho incompleto. Outra gota. Mas o chão continuava seco. Lágrimas escorriam pelo rosto branco, contornando as feições, molhando os lábios e então cortando o ar até deitarem-se na folha de papel. Ela não tinha para onde ir. Para ela não fazia diferença se chovesse ou não. Ninguém se importaria se ela se molhasse. Nem ela.<br />
<span id="more-156"></span>
</p>
<p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify">Quando a chuva começou ela apenas deitou-se na relva e fechou os olhos. As gotas geladas caíam do céu sobre seu corpo, encharcando sua roupa e escondendo suas lágrimas. Não era a primeira vez que chorava na chuva, e tinha a certeza que não seria a última. Pensava na vida: nas pessoas que eram importantes e estavam longe&#8230; Nas pessoas que nem sabiam que ela existia&#8230; nas pessoas que estavam próximas e não se importavam..</p>
<p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify">De repente percebeu que não caíam mais gotas sobre seu rosto, e apenas suas lágrimas molhavam sua face agora. Abriu os olhos alarmada, e rolou assustada ao ver um rosto olhando o seu. Levantando do chão às pressas, viu que uma mulher a observava, segurando um guarda-chuva.</p>
<p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify">“Você pode pegar uma pneumonia ficando na chuva assim. Desculpe se assustei você&#8230;. Venha comigo, eu moro aqui perto. Você pode tomar um banho quente e se trocar”. A mulher falou com uma voz calma e com um olhar curioso. Ao terminar o convite, aproximou-se dela e colocou o guarda-chuvas sobre sua cabeça.</p>
<p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify">“Como é seu nome?” A mulher perguntou. A garota ficou em silêncio. “Eu não vou morder você&#8230;. Meu nome é Lilian.”. Apenas a chuva cortava o silêncio. Então a garota respondeu. “Bruna”.</p>
<p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify">As duas caminharam sem falar mais nada por alguns minutos. A chuva estava ficando cada vez mais forte, e o pequeno guarda-chuvas não foi suficiente para que chegassem secas na pequena casa que a mulher morava. Ao entrarem, Lilian colocou de lado o guarda chuva, tirando a camisa encharcada. Bruna imediatamente desviou o olhar.</p>
<p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify">“Não precisa ter vergonha. Não tenho nada que você não tenha também.” Lilian falou com um sorriso que não deixou Bruna mais a vontade. Afinal, estava em uma casa desconhecida com uma estranha que havia acabado de conhecer. “Bruna, o banheiro é logo ali. Pode tomar um banho se quiser. Eu vou preparar um chocolate quente e pegar algo para você vestir.”</p>
<p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify">Bruna entrou no banheiro ainda segurando seu bloco de desenhos, e trancou a porta. O banheiro era grande, considerando o tamanho da casa. “Bem, creio que a casa deva ter um quarto, o banheiro, a sala e uma cozinha.”, pensou a garota. Olhou para o espelho e viu seu reflexo: cabelos desarrumados, rosto sujo, camisa enlameada. O rosto, bonito apesar da falta de cuidado, tinha uma aparência cansada e triste. Os olhos castanhos não brilhavam mais, refletindo a opacidade que dominava sua alma.</p>
<p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify">Ligou o chuveiro. O tocar da água quente na pele gelada fez com que se arrepiasse, e as mãos úmidas e cobertas de sabonete faziam com que seu corpo respondesse ainda mais à mudança de temperatura. Tocou o seio com um dedo, lembrando-se de Lilian, e mentalmente discordando de que ela não tinha nada diferente. Os seios da mulher eram maiores, mas mesmo não sendo extremamente grandes eram firmes e os mamilos rosados na pele branca como leite formavam um conjunto perfeito.</p>
<p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify">Antes mesmo que se desse conta, Bruna estava acariciando levemente seus próprios seios, e deixou a mão deslizar junto com a água que caía até pouco abaixo de sua barriga. Deixou um gemido escapar ao tocar a área sensível e se deu conta do que estava fazendo, ficando corada e sem graça. A mão recuou e tocou a língua, levando seu próprio gosto consigo. Então apressou-se em terminar o banho.</p>
<p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify">Pegou uma toalha, enrolou em volta de seu corpo, e abriu um pouco a porta, o suficiente para colocar a cabeça do lado de fora. “Lilian? Desculpe incomodar&#8230; mas terminei o banho&#8230; Será que você teria&#8230;”</p>
<p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify">A resposta veio de longe, cortando sua fala. “Desculpe! Estou levando a roupa que havia dito. Acabei não prestando atenção no tempo. Estava preparando algo para comermos.” Lilian surgiu do outro lado do corredor, vestida em uma blusa branca, carregando nos braços um vestido preto.</p>
<p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify">“Acho que ele deve ser do seu tamanho. Eu usava quando era mais nova&#8230; espero que não se importe.”</p>
<p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify">Lilian agradeceu e pegou o vestido, fechando novamente a porta para se trocar. Olhou a roupa. Era de seda com algumas rendas no decote, e parecia confortável. Colocou-o e abriu novamente a porta, encontrando Lilian, que a esperava.</p>
<p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify">“Você ficou linda nele”, disse com um sorriso. “E ele é confortável para ficar em casa. Venha, preparei um chocolate quente e macarrão. Espero que você goste de molho branco.”</p>
<p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify">As duas sentaram-se na pequena mesa que Lilian havia colocado na sala. As cadeiras em lados opostos faziam com que se olhassem diretamente. Bruna olhou o prato, pegou os talheres, e provou um pouco do macarrão.</p>
<p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify">“Como você veio parar aqui, Bruna?” Lilian interrompeu o silencio, com uma voz suave. Bruna olhou para a mulher e depois abaixou os olhos. “Eu estava&#8230; desenhando.” Não falou mais nada. Não queria dizer que ali, no meio nada, era onde se sentia menos sozinha.</p>
<p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify">“Desenhista? Você faria um retrato meu?” Lilian perguntou sem perceber que Bruna havia ficado um tanto nervosa. Tomou um pouco do chocolate quente e olhou para a garota, aguardando a resposta, que não veio. “Bem, creio que quem cala consente. Vou pegar um lápis e uma folha para você, já que seu bloco se molhou. Por quê não me acompanha, assim que terminar?”. Ao falar isso, colocou os talheres de lado.</p>
<p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify">Bruna comeu mais um pouco e então as duas se levantaram. Lilian levou a garota até o quarto, no fim do corredor. Bruna olhou surpresa a quantidade de quadros pendurados na parede, e alguns até mesmo encostados nos cantos. “Eu gosto de pintar&#8230; Faz bem para alma. Mas poucas pessoas algum dia vêem meus quadros.” Um dos quadros chamou a atenção de Bruna. Era uma mulher, nua, com um olhar que parecia vivo. A pele branca e suave, posando deitada em cima de uma colcha vermelha aveludada, lembrava a de Lilian. Porém o rosto era bem diferente, com traços não tão delicados.</p>
<p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify">“Fiz esse quadro para uma amiga. Essa é a minha cama&#8230; exatamente a mesma que você vê agora.” Lilian entregou uma folha e um lápis para Bruna. “Como você gosta de desenhar?”</p>
<p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify">Bruna não sabia o quê falar. Nunca havia estado em uma situação como aquela antes, com uma pessoa estranha que parecia controlar cada gesto seu. Estava vulnerável, mas não sentia exatamente medo. Apenas estava sem saber o quê fazer. “Se você quiser, posso desenha-la como sua amiga.” Ao terminar de falar, estava chocada consigo mesma. Havia respondido instintivamente, ainda hipnotizada pelo olhar da mulher no quadro.</p>
<p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify">Lilian ficou séria por um momento, e seu rosto pareceu enrubescer levemente. Então sentou-se sobre a cama e tirou a blusa. Os seios brancos novamente tomaram os olhos de Bruna, que dessa vez observou-os atentamente. Eram pouco maiores que os seus, com mamilos pequenos rosados, um deles coberto pelos cabelos. Também viu que a mulher tinha um pescoço longo e elegante, coberto parcialmente pelos cabelos negros que desciam até a barriga, e brilhavam na luz fraca que iluminava o quarto.</p>
<p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify">Então a mulher esticou as pernas e tirou a bermuda, ficando apenas com uma calcinha de renda preta. “Você realmente quer desenhar agora?”. Lilian, com movimentos lentos, levantou-se da cama e se aproximou de Bruna, que estava estática. Colocou os braços em volta da cintura da garota e apoiou as mãos em suas costas, puxando-a para si sem força. “Ou você quer a mesma coisa que aquela mulher queria?”</p>
<p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify">Com a cabeça girando, Bruna não conseguiu ter nenhuma reação, a não ser olhar para os olhos da mulher, que encontravam-se quase encostados nos seus. Logo sentiu o calor de lábios encostando nos seus e abriu a boca sem resistência, deixando com que a umidez da língua da mulher tocasse sua própria. Fechou os olhos.</p>
<p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify">O beijo foi longo e profundo, com as duas línguas movendo-se como se houvessem combinado o que fariam. O perfume da mulher a embriagava, e não ofereceu qualquer resistência ao sentir que ela levantava seu vestido. Sentiu a boca deixar a sua, indo percorrer seu pescoço em uma trajetória descendente em direção à seus seios, onde foi repousar.</p>
<p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify">Um gemido escapou-lhe dos lábios quando sentiu a boca morder seu mamilo, e seu corpo arrepiou-se inteiramente quando seu seio foi sugado por ela. Sentia as mãos acariciarem um de seus seios enquanto o outro era beijado, e sentia um calor  tomar-lhe o corpo. O lápis e a folha caíram, ecoando no quarto silencioso.</p>
<p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify">Seu corpo foi deitado na cama, e sentiu o corpo da mulher cobri-la. A maciez da pele, o volume dos seios, o calor da respiração, a umidade do beijo. Uma das mãos deixou o seio e traçou um caminho por sua barriga, arranhando-a com a unha. Quando o dedo tocou seu clítoris não conseguiu conter-se e gemeu novamente.</p>
<p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify">Seu corpo contraía-se involuntariamente a cada vez que o dedo tocava o ponto sensível. Lilian parou de beijar os seios de Bruna, ficando apenas observando o rosto da garota, que carregava um sorriso contorcido. Sentia seu dedo ficar cada vez mais molhado, deslizando facilmente, e logo levou outro dedo para a área quente. Bruna arcou as costas, sentindo a fricção dos dois dedos, e uma onda invadiu seu corpo fazendo-a gritar. Lilian sorriu, e rapidamente levou a boca até a região entre as pernas da garota, colocando a língua em seu corpo e sentindo seu sabor.</p>
<p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify">Bruna não estava pensando em mais nada, sendo levada pelo prazer que sentia no momento. A língua quente provocava sensações maravilhosas, ao ponto de se tornarem insuportáveis. Já não agüentava mais quando sentou-se, sem fôlego, para encontrar o rosto sorridente de Lilian.</p>
<p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify">“Chega!” Falou ofegante, sentindo seu suor cobrir seu corpo. Lilian então colocou seu corpo sobre o dela, levando a mão da garota até entre suas próprias pernas. “Eu mal comecei&#8230; e você não fez nada ainda&#8230; se pensa que vai sair assim, está muito enganada.”</p>
<p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify">Entendendo o que a mulher queria, Bruna tocou-a e seus dedos ficaram imediatamente molhados. Deslizou dois deles pela dobra macia, sendo atraída pelo calor como uma mariposa era atraída pela lua. No começo os movia timidamente, mas logo foi perdendo a vergonha ao ver que Lilian começava a gemer. Logo estava tocando a si mesma além da mulher, apesar de se sentir muito sensível.</p>
<p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify">Lilian, percebendo que se aproximava do clímax e vendo que logo Bruna não agüentaria mais, levantou uma das pernas da garota e fez com que os dois corpos se tocassem. As duas gemiam e ofegavam como se fossem um só corpo, a transpiração de ambas se misturando sobre os corpos. Logo as duas estavam deitadas lado a lado, abraçadas, apenas olhando-se. Acabaram dormindo.</p>
<p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify">No dia seguinte Bruna acordou e viu que Lilian estava colocando a roupa dela ao lado da cama. A mulher sorriu ao vê-la acordada. “Ia deixar um bilhete. Tenho que sair, mas deixei sua roupa pronta. Está sol, então não deve ser problema para voltar para casa.”</p>
<p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify">Bruna sentiu um aperto no peito. “Posso vê-la de novo?” Lilian sorriu como se houvesse ouvido uma criança fazer uma pergunta óbvia. “Sempre que você quiser. E precisar. Sempre que estiver chorando eu irei encontrá-la. E sempre que suas lágrimas houverem secado irei deixar tudo pronto para que volte para casa.”</p>
<p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify">Deu um beijo na testa da garota e andou até a porta. Parou por um momento e virou-se. “E você ainda me deve um quadro. Mas não se preocupe. Eu também demorei até fazer aquela pintura. Teremos tempo.”</p>
<p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify">Então saiu do quarto, e Bruna ouviu a porta da casa fechar-se.</p>
<p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify">
<p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify"><a rel="attachment wp-att-157" href="http://diegolima.org/rpp/?attachment_id=157">Dia Chuvoso &#8211; Download em PDF</a></p>
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		<title>Fábula do Arco-Íris</title>
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		<pubDate>Fri, 12 Dec 2003 16:49:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>D</dc:creator>
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		<category><![CDATA[2003]]></category>
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		<description><![CDATA[
Azul. Uma luz azul corta a escuridão. O pequeno raio segue, intocado, sempre na direção que foi lançado. A ele não importa o que irá iluminar.

E em um ponto ele se encontra com um raio amarelo. &#8220;Para onde vais, raio azul?&#8221;. O raio amarelo pergunta.

&#8220;Aonde vou? Como se isso o interessasse! Vou sempre em frente, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><!-- 		@page { margin: 2cm } 		P { margin-bottom: 0.21cm } --></p>
<p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify"><span lang="pt-BR">Azul. Uma luz azul corta a escurid</span><span lang="pt-BR">ão. O pequeno raio segue, intocado, sempre na direção que foi lançado. A ele não importa o que irá iluminar.</span></p>
<p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" lang="pt-BR" align="justify">
<p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify"><span lang="pt-BR">E em um</span><span lang="pt-BR"> ponto ele se encontra com um raio amarelo. &#8220;Para onde vais, raio azul?&#8221;. O raio amarelo pergunta.</span></p>
<p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" lang="pt-BR" align="justify">
<p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify"><span lang="pt-BR">&#8220;Aonde vou? Como se isso o interessasse! Vou sempre em frente, na </span><span lang="pt-BR">direção em que fui lançado. Como, aliás, todo raio de luz!&#8221;. A resposta do azul foi seca. O amarelo então foi embora.<br />
<span id="more-148"></span></span>
</p>
<p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" lang="pt-BR" align="justify">
<p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" lang="pt-BR" align="justify">Mais a frente se deparou com um feixe roxo, que tambem o perguntou: &#8220;Onde vais, raio azul?&#8221;.</p>
<p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" lang="pt-BR" align="justify">
<p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify"><span lang="pt-BR">Este, j</span><span lang="pt-BR">á irritado, respondeu: &#8220;Vou sempre em frente, ao invés de ficar me intrometendo na vida dos outros!&#8221;</span></p>
<p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" lang="pt-BR" align="justify">
<p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify"><span lang="pt-BR">E assim foi prosseguindo, sendo ainda interrompido por mais cinco raios em seu percurso, dando sempre respostas grossas</span><span lang="pt-BR"> às perguntas que faziam.</span></p>
<p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" lang="pt-BR" align="justify">
<p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify"><span lang="pt-BR">At</span><span lang="pt-BR">é que, mais a frente, os sete raios voltaram juntos para falar com ele. &#8220;Ora, se não é nosso amigo anti-social! Olhe como juntos, sem sua preocupação de sempre seguir em frente, ficamos belos e chamativos! Formamos um arco-íris! E se voce parasse por um instante, se juntasse a nós, seria belo também!&#8221;</span></p>
<p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" lang="pt-BR" align="justify">
<p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify"><span lang="pt-BR">O raio azul sequer lhes deu aten</span><span lang="pt-BR">ção, seguindo sempre seu caminho. Só que estava rindo-se à medida que pensava: &#8220;Pobres tolos&#8230; Se orgulham de serem um arco-íris, e sequer percebem que sou o azul do céu que os envolve!&#8221;</span></p>
<p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify">
<p class="western" style="margin-bottom: 0cm;" align="justify"><span lang="pt-BR"><a rel="attachment wp-att-149" href="http://diegolima.org/rpp/?attachment_id=149">Fábula do Arco-Íris &#8211; Download em PDF</a><br />
</span></p>
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