Raindrop: Pagan Poetry

Tag: contos

Agares

by on Mar.03, 2009, under Textos

Seria um dia como qualquer outro: o sol havia brilhado sendo encoberto raras vezes por nuvens ralas, não havia feito muito calor, as pessoas haviam ido, em sua maioria, trabalhar pela manhã e tarde, com a noite dominada pela luz dos televisores nas salas de cada uma das residências. Para muitos aquele realmente foi um dia como qualquer outro, mas não em um apartamento igual a vários outros. Nesse indistinto apartamento Agares, agora com um ano e três meses, havia proferido sua primeira palavra e o lar festejava.

“Amo”
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A Moça que Dormia

by on Jan.21, 2009, under Textos

Acordou e olhou, feliz, o delicado e sereno rosto que descansava no travesseiro ao lado, embalado por sonhos tranqüilos. Levantou-se então, com um sorriso, e foi até a cozinha preparar o seu café da manhã e o da moça, que não veria acordar mas desejava ao menos deixar algo simbólico como agrado. Fazia isso todos os dias e acordar todas as manhãs olhando aquela face era toda a recompensa que poderia desejar.
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Correntes

by on Jan.20, 2009, under Textos

Ouviu a corrente se arrastar. Foi um ruído quase imperceptível, e provavelmente já estava o acompanhando a algum tempo, sem que seus ouvidos percebessem, sem que sua pele notasse o toque gelado do metal, sem que sua mente reagisse. Virou-se e pela primeira vez pode ver claramente que o prendiam. Ou pelo menos julgou ser a primeira vez.

Como haviam o prendido por tanto tempo? Como estava sendo sufocado sem oferecer o mínimo de resistência? Como havia deixado que aquelas amarras o abraçassem e lhe acompanhassem até tão longe?
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A Espera

by on Jan.20, 2009, under Textos

Naquela noite, soturno, voltou os olhos à lua que deveria estar sobre as nuvens. Não conseguia enxergar seu brilho, mas seu coração tinha a certeza que estava lá, em algum lugar, olhando para ele e sorrindo carinhosamente, esperando a tempestade que começara mais cedo passar para acariciá-lo com seus braços prateados.

E todas as noites ele olhava para o céu na esperança da incômoda umidade ter se dissipado, e todas as noites retornava apenas com as lágrimas lavadas pela água que, incessante, vinha ao encontro de seu rosto. Mas sabia que a lua estaria lá, e vivia cada dia com a certeza que se revelaria no próximo.

Um dia. Uma semana. Um mês.
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Pecados

by on Nov.12, 2008, under Textos

Ainda nevava levemente, e o vento gelado corria pela imensa área que um dia fora coberta por exuberante vegetação. Mas o ar agora não encontrava qualquer resistência ao movimento: os poucos troncos quebrados que restaram jaziam sob a espessa camada de água cristalizada. O manto branco escondia o retrato da destruição que tomara lugar naquele vale à muito tempo atrás. Desde então o relógio havia se esquecido de marcar as horas. E o inverno se esquecera de ceder lugar à primavera.

Porém a antiga catedral ainda ocupava, como fora desde o início dos tempos, o mesmo lugar, suas duas torres saindo da neve como lanças negras desafiando a natureza. A única resposta que esta lhe dava era lançar lufadas gélidas adentro da janela, uma boca de vidro afiado como presas mas que jamais cortaram carne alguma: nenhum animal sobrevivera ao longo período glacial para se aventurar ali. As noites e dias passavam silenciosamente, exceto por alguns raros uivos dos lobos que habitavam as montanhas ao norte.
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