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Correntes
by D on Jan.20, 2009, under Textos
Ouviu a corrente se arrastar. Foi um ruído quase imperceptível, e provavelmente já estava o acompanhando a algum tempo, sem que seus ouvidos percebessem, sem que sua pele notasse o toque gelado do metal, sem que sua mente reagisse. Virou-se e pela primeira vez pode ver claramente que o prendiam. Ou pelo menos julgou ser a primeira vez.
Como haviam o prendido por tanto tempo? Como estava sendo sufocado sem oferecer o mínimo de resistência? Como havia deixado que aquelas amarras o abraçassem e lhe acompanhassem até tão longe?
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A Espera
by D on Jan.20, 2009, under Textos
Naquela noite, soturno, voltou os olhos à lua que deveria estar sobre as nuvens. Não conseguia enxergar seu brilho, mas seu coração tinha a certeza que estava lá, em algum lugar, olhando para ele e sorrindo carinhosamente, esperando a tempestade que começara mais cedo passar para acariciá-lo com seus braços prateados.
E todas as noites ele olhava para o céu na esperança da incômoda umidade ter se dissipado, e todas as noites retornava apenas com as lágrimas lavadas pela água que, incessante, vinha ao encontro de seu rosto. Mas sabia que a lua estaria lá, e vivia cada dia com a certeza que se revelaria no próximo.
Um dia. Uma semana. Um mês.
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Pecados
by D on Nov.12, 2008, under Textos
Ainda nevava levemente, e o vento gelado corria pela imensa área que um dia fora coberta por exuberante vegetação. Mas o ar agora não encontrava qualquer resistência ao movimento: os poucos troncos quebrados que restaram jaziam sob a espessa camada de água cristalizada. O manto branco escondia o retrato da destruição que tomara lugar naquele vale à muito tempo atrás. Desde então o relógio havia se esquecido de marcar as horas. E o inverno se esquecera de ceder lugar à primavera.
Porém a antiga catedral ainda ocupava, como fora desde o início dos tempos, o mesmo lugar, suas duas torres saindo da neve como lanças negras desafiando a natureza. A única resposta que esta lhe dava era lançar lufadas gélidas adentro da janela, uma boca de vidro afiado como presas mas que jamais cortaram carne alguma: nenhum animal sobrevivera ao longo período glacial para se aventurar ali. As noites e dias passavam silenciosamente, exceto por alguns raros uivos dos lobos que habitavam as montanhas ao norte.
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Dia Chuvoso
by D on Jul.29, 2006, under Textos
Ela estava sentada com seu bloco de folhas em seu colo, e um lápis na mão. Porém o lápis estava estático como seus olhos, fixos em algum ponto distante além das nuvens que começavam a cobrir o céu. Um vento começava a soprar, criando ondas na grama ao redor da garota, anunciando que logo uma tempestade iria cair sobre a terra.
Um pingo caiu sobre o bloco que a garota segurava, molhando o grafite e ameaçando borrar o desenho incompleto. Outra gota. Mas o chão continuava seco. Lágrimas escorriam pelo rosto branco, contornando as feições, molhando os lábios e então cortando o ar até deitarem-se na folha de papel. Ela não tinha para onde ir. Para ela não fazia diferença se chovesse ou não. Ninguém se importaria se ela se molhasse. Nem ela.
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Fábula do Arco-Íris
by D on Dec.12, 2003, under Textos
Azul. Uma luz azul corta a escuridão. O pequeno raio segue, intocado, sempre na direção que foi lançado. A ele não importa o que irá iluminar.
E em um ponto ele se encontra com um raio amarelo. “Para onde vais, raio azul?”. O raio amarelo pergunta.
“Aonde vou? Como se isso o interessasse! Vou sempre em frente, na direção em que fui lançado. Como, aliás, todo raio de luz!”. A resposta do azul foi seca. O amarelo então foi embora.
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